segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Mariologia na Redemptoris Mater de João Paulo II - parte 4

Na segunda parte do capítulo que trata de Encíclica Redemptoris Mater do Papa João Paulo II, no seu livro “Maria, nueva Eva”, Cándido Pozo passa à análise da maternidade de Maria em relação à Igreja e aos cristãos, tornando a teologia do Papa sobre o tema ainda mais acessível13:

1.         O testamento da Cruz



A passagem de Jo 19,25-27 tem sido objeto de atenta reflexão por parte dos exegetas e mariológos. Por múltiplas razões, está fora de toda dúvida razoável que não nos é relatado nela uma cena meramente familiar (Jesus moribundo, preocupada com a solidão futura de sua Mãe, a confiaria a um amigo), mas sim uma cena de alcance teológico na qual Jesus proclama Maria como mãe do discípulo, de todo discípulo, enquanto incute em todo discípulo que conseqüentemente olhe para Maria como mãe. A partir desta convicção acerca de qual é a verdadeira exegese destes versículos, costuma-se designar a cena como “a proclamação da maternidade espiritual de Maria”.
Tudo isso é muito certo. Entretanto, João Paulo II, na Encíclica Redemptoris Mater, chama esta passagem com um novo nome sumamente sugestivo, que pode ser muito útil para uma vivência renovada do que Jesus quis nos dizer nela: “o testamento da Cruz”. Jesus, como todo moribundo, se preocupa em legar. A partir da cruz, nos lega o que de mais precioso possui na terra, a sua Mãe. Este é o sentido último das solenes e profundas palavras de Jesus crucificado: “Jesus, vendo sua Mãe e junto a ela o discípulo que ele amava, disse a sua Mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. Logo disse ao discípulo: ‘Eis aí a tua Mãe’” (Jo 19,26-27).
É conhecido que o pensamento filosófico de Karol Wojtyla está fortemente impregnado de um personalismo são. Isso lhe faz não se esquecer que, no momento em que Jesus pronuncia essas palavras, não está simplesmente morrendo pela salvação da humanidade em abstrato, mas pela salvação de cada pessoa em particular. São Paulo, que aos Efésios escreve: “Cristo nos amou e se entregou por nós“ (Ef 5,2) ou “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25), tem em sua carta aos Gálatas a expressão mais absolutamente pessoal: “Amou-me e se entregou por mim” (Gál 2,20). O fato de sua doação total em concreto por cada um tem, sem dúvidas, que refletir-se na própria consciência humana de Jesus. Porque as palavras do “testamento da cruz” são pronunciadas nesse precioso momento em que a Redenção está se realizando, “a Mãe de Cristo, encontrando-se no campo direto deste mistério que abarca o homem – a cada um e a todos -, é entregue ao homem – a cada um e a todos – como Mãe”. Isso implica que não podemos contentar-nos com ver nessas palavras de Jesus moribundo uma proclamação da maternidade espiritual de Maria sobre todos os fiéis; é um testamento em que concretamente me é dada Maria como minha Mãe.

a)         A acolhida do discípulo

Um testamento tem que ser aceito. O “testamento da cruz”, enquanto que é dirigido a cada um em particular, e não somente aos fiéis em geral, tem que ser aceito por cada um de nós. “A partir daquela hora o discípulo a acolheu entre suas coisas” (Jo 19,27); desde aquela hora todo discípulo, para ser um bom discípulo, tem que aceitar o testamento e tomar Maria como coisa sua.
São João assinalou, outras vezes, diversas qualidade que tem de reunir o discípulo de Jesus para o ser realmente: tem que guardar seus mandamentos (Jo 14,14.21.23), partindo de um amor a Deus (1 Jo 5,2); os discípulos têm que amar-se mutuamente como Cristo os amou (Jo 13,35;15,12); têm que crer que Jesus foi enviado por Deus (Jo 17,8) e que é o Filho de Deus (Jo 20,31); têm que adotar uma atitude de humildade e serviço, seguindo o exemplo do Mestre (Jo 13,13-17). Em Jo 19,2714 é anunciada é nota subseqüente que o discípulo deve possuir: deve ter Maria como coisa sua; entre suas estruturas espirituais deve haver uma dimensão mariana que o faça acolher (λαβεν não significa “olhar”, mas “tomar” ou “acolher”) Maria como Mãe.  A palavra “acolher” implica assim todo um comportamento filial com respeito à Maria. “Entregando-se filialmente a Maria, o cristão, como o apostólo João, ‘acolhe entre as suas coisas’ a Mãe de Cristo e a introduz em todo o espaço de sua vida interior, isto é, em seu eu humano e cristão”.
A tradução mais comum do texto de Jo 19,27 (“acolheu-a em sua casa”) não faz jus à riqueza contida nessa passagem. A Encíclica crê insuficiente esse modo de traduzir:

“Como é bem sabido, no texto em grego a expressão ες τ δια supera o limite de uma acolhida de Maria por parte do discípulo no sentido do mero alojamento material e da hospitalidade em sua casa; expressa melhor uma comunhão de vida que se estabelece entre os dois com base nas palavras do Cristo agonizante”.

A Encíclica confirma essa posição com um belo texto de Santo Agostinho: “Tomou-a consigo, não entre sua herança, porque não possuía nada próprio, mas entre suas obrigações que realiza com senso de urgência. I. de La Potterie capta perfeitamente o sentido do versículo quando propões traduzi-lo como: “A partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua intimidade”.15
 No conjunto de reflexões que gravitam sobre a afirmação mesma de Jo 19,27 (“A partir daquela hora, o discípulo a acolheu entre suas coisas”), aparece claramente, em primeiro lugar, que a devoção mariana constitui uma dimensão irrenunciável do discípulo de Jesus, desde o momento em que o Senhor proclamou seu testamento, até o fim dos tempos. Compreende-se, por isso, a frase de Paulo VI em sua homilia no Santuário de Nossa Senhora de Bonaria em 24 de Abril de 1970: “se queremos ser cristãos, devemos ser marianos”. Com essas palavras, Paulo VI não anunciava um pensamento piedoso, mas que se limitava estritamente a traduzir Jo 19,27: desde então todo discípulo de Jesus, para ser-lo, deve ter uma profunda dimensão mariana.
Em segundo ligar, a devoção mariana, por expressar-se em uma relação mútua entre mãe e filho, tem ressonâncias de total intimidade pessoal. “É essencial à maternidade a referência à pessoa. A maternidade determina sempre uma relação única e irreproduzível entre duas pessoas: a da mãe com o filho e a do filho com a mãe. Ainda que a uma mesma mulher seja mãe de muitos filhos, sua relação pessoal com cada um deles caracteriza a maternidade em sua própria essência. De fato, cada filho é gerado de um modo único e irreproduzível, e isto vale tanto para a mãe como para o filho. Cada filho é rodeado do mesmo modo por aquele amor materno, sobre o qual se baseia sua formação e amadurecimento na humanidade”. Pois então, isto que aparece com claridade “na ordem da natureza” é também verdadeiro por analogia “na ordem da graça”. Por isso, a afirmação da Encíclica de que Maria é dada como mãe particularmente a cada discípulo, ilumina ulteriormente o sentido da resposta a este dom que é exigida em Jo 19,27: “A partir daquela hora, o discípulo a acolheu entre suas coisas”. Esta “afirmação indica, ainda que indiretamente, o que a relação íntima de um filho com sua mãe expressa. E tudo isso se encerra na palavra ‘entrega’. A entrega é a resposta ao amor de uma pessoa e, concretamente, ao amor da mãe”. A devoção mariana de todo discípulo deve chegar até a entrega filial a “Aquela que é a sua Mãe”.

b)         A Anunciação e a espera de Pentecostes



Encerra uma consideração sumamente importante original e profunda a afirmação do Papa na Encíclica de que “na economia da graça, atuada pela ação do Espírito Santo, dá-se uma particular correspondência entre o momento da Encarnação do Verbo e o do nascimento da Igreja. A pessoa que une estes dois momentos é Maria: Maria em Nazaré e Maria no cenáculo de Jerusalém”. Na realidade, Maria concebe a Jesus pela obra do Espírito Santo. A Igreja recebe também a vida pelo dom do Espírito Santo impetrado pela intercessão materna de Maria. Este paralelismo é lógico, já que a Igreja, como corpo místico de Cristo, é prolongação d’Ele. Poder-se-ia dizer, portanto, que, tanto para que Jesus nasça como para que nasça a Igreja (no sentido de que começa a ter a vida da graça que o Espírito Santo a comunica), os dois protagonistas são sempre os mesmos: Maria e o Espírito Santo.
Assim, Maria esteve presente – como mãe, tinha que estar – no momento em que a Igreja começa o caminho da fé, ou seja, quando é inaugurada “a peregrinação da Igreja através da história dos homens e dos povos”. Por isso se encontra no meio dos apóstolos no cenáculo “implorando com seus pedidos o dom do Espírito”. Por certo, trata-se do Espírito “que na Anunciação já havia coberto a ela com a sua sombra”.
Ulteriormente, Maria tem que estar presente na posterior ação evangelizadora da Igreja. “Também em sua obra apostólica com razão a Igreja olha para aquela que gerou a Cristo, concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem, precisamente para que pela Igreja nasça e cresça também nos corações dos fiéis”. Este olhar à Mãe de Cristo surge espontaneamente, se se tem em conta o sentido maternal da ação apostólica da Igreja. São Paulo o expressou de modo vigoroso ao escrever: “Filhinho meus, por quem sofro de novo dores de parto, até ver Cristo formado em vós!” (Gál 4,19). Neste ponto, “a Igreja se encontra com Maria e tenta assemelhar-se a ela”. Neste sentido, “Maria está presente no mistério da Igreja como modelo”. Mas Maria é muito mais para a Igreja: “A maternidade de Igreja é levada a cabo não somente segundo o modelo e a figura de Mãe de Deus, mas também com sua ‘cooperação’”. Aquela que com sua oração obteve em Pentecostes o dom do Espírito, assunta em corpo e alma ao céu, mediante sua intercessão, “com materno amor coopera incessantemente com a geração e educação” dos filhos e filhas da mãe Igreja.
A presença de Maria na vida da Igreja é inegável e, com certeza, possui um peso decisivo. Ela reuniu em torno de si as famílias cristãs que o Concílio Vaticano II chama de “igrejas domésticas”, durante séculos com a oração do terço, em que com os olhos de Maria se contemplam suavemente, enquanto são debulhadas as “Ave-Marias”, os mistérios fundamentais da nossa salvação. Desgraçadamente, o costume do terço em família decaiu de modo bastante notável. Vale a pena exortar as famílias cristãs a que, pelo o menos em ocasiões específicas, recuperem este costume cheio de valores cristãos. A imagem ou o quadro da Virgem, que não deve faltar no lar de nenhuma família católica, deve ser ponto de referência a alguma oração familiar, ainda que breve, à Mãe do Senhor. Maria também está presente nas comunidades paroquiais, em cujos templos sua imagem sempre possui um lugar destacado. Teremos que procurar vivificar um culto sério a ela. A presença de Maria é patente nos institutos religiosos, muitos dos quais levam seu nome inclusive em seu título oficial. Está igualmente presente nas dioceses, nenhuma das quais carece de um grande santuário mariano.
O Papa se detém para enfatizar a importância dessa “geografia” mariana, cujas virtualidades pastorais temos que aproveitar ao máximo. Os grandes santuários de influxo internacional exercem uma ação de atração espiritual incalculável. Guadalupe do México, Lourdes ou Fátima são centos de espiritualidade aos quais acodem multidões de fiéis de diversos países, que se sentem atraídos pela Virgem e que aos seus pés encontram a Cristo: os fiéis nestes santuários não passam espontaneamente a uma reconciliação, cheia de arrependimento e conversão, no sacramento do perdão e uma gozosa recepção na Eucaristia? A nível nacional, não podemos nos esquecer da eficácia dos grandes santuários da Virgem existentes nas diversas regiões. Devemos potenciar esse influxo para contribuir assim com uma renovação espiritual dos nossos fiéis.
Nestes santuários, veneremos imagens de Maria, algumas delas rodeadas do carinho de milhares e milhares de fiéis durantes séculos Não desvalorizemos o culto às imagens. Precisamente no mesmo ano em que João Paulo II publicava sua Encíclica Redemptoris Mater (1987), celebrava-se “o 12° centenário do II Concílio ecumênico de Nicea (a. 787), no qual, ao final da controvérsia sobre o culto às imagens sagradas, foi definido que, segundo o ensinamento da Igreja, podiam-se propor à veneração dos fiéis, junto com a Cruz, também as imagens da Mãe de Deus, dos Anjos e dos Santos, tanto nas igrejas como nas casas e nos caminhos”



[13] Cf. POZO, C., “María, nueva Eva.”, BAC, Madrid 2005, p. 416-423.


[15] “’Et à partir de cette heure, Le Disciple l’accueillit dans son intimité’ (Jn 19,27b). Réflexions méthodologiques sur l’interprétation d’um verset johannique”: Mar 42 (1980) 84-125

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Somos todos mendigos

Apenas alguns meses atrás, um amigo meu da arquidiocese de Nova York foi a Roma por uma semana. Ele participava de uma Conferência e no último dia dessa Conferência, depois do almoço, ele foi até uma paróquia para fazer a sua oração da tarde. Enquanto ele subia as escadas, passou por meia-dúzia de mendigos, que são comuns em Roma nas paróquias, mas enquanto ele atravessava as portas, pensou ter reconhecido um dos mendigos.
Sentou-se, tentou rezar, mas ele estava muito distraído. Ele voltou e disse em italiano:
- Eu te conheço?
O cara olhou para cima e disse:
- Sim. Nós fomos para o seminário e ordenados aqui em Roma juntos.
- O que aconteceu? - ele perguntou.
E o mendigo, em seguida respondeu:
- Nem me pergunte! Eu acabei com minha vida! Deixe-me em paz!
- Oh, não! Vou rezar por você! – o padre respondeu.
Naquele momento, ele percebeu que já estava atrasado para a última reunião da Conferência em São Pedro e por isso correu para lá. Naquela tarde, no final da Conferência, os participantes tiveram a chance de se encontrar com João Paulo II para compartilhar seus resultados da Conferência.
Nessas reuniões privadas, cada pessoa tem a chance de subir até o Papa, beijar seu anel, pegar o rosário com seu secretário e dizer algo como "Obrigado", "Eu te amo", "Eu rezo por você" ou "' seja o que for’, Santo Padre", e, em seguida, o próximo na linha vem para frente.
Este sacerdote estava tão tomado pelo que ele tinha acabado de encontrar que, quando ele foi beijar o anel do Papa, disse:
- Eu amo você, ore por meu amigo!
E ele acabou contanto tudo o que tinha acontecido.
Depois que ele deixou a reunião, voltou para a paróquia, para ver se o seu velho amigo ainda estava lá. Apenas dois ou três restavam ali, mas um deles era ele. Enquanto caminhava até ele, o padre disse:
- Acabei de encontrar com o papa e ele está orando por você
O mendigo então disse, com um sorriso cínico no rosto:
- Ah, sim, isso vai resolver meus problemas!
Mas o padre respondeu:
- Isso não é tudo! Ele e o seu secretário expediram um convite para nós dois nos juntarmos a eles para jantar no apartamento papal hoje à noite!
- Sem chance! Olhe para mim! Eu não tenho roupas; não estou limpo como você!
- Você não entende! Você é o meu bilhete, se eu não levá-lo, eu não entro! Eu tenho um quarto de hotel, você pode tomar banho e eu tenho roupas que vão servir!
Então, com relutância, esse mendigo seguiu o sacerdote que o levou para dentro. Ele tomou banho, fez a barba e vestiu-se.
Mais tarde naquele dia, estavam do lado de fora das portas de bronze. A Guarda Suíça deixou-os entrar às 7 horas e eles subiram as escadas de mármore. O secretário do papa estava esperando por eles do lado de fora do apartamento e levou-os para dentro. Quando entraram, o Papa já estava sentado, eles se cumprimentaram, sentaram-se e começaram a conversar.
O primeiro prato, o segundo, e em seguida o prato principal foram servidos. Após o prato principal, o Papa continuou ficou olhando para o padre e fazendo um sinal com a mão. O padre não entendeu, mas o secretário do papa sim. Ele se levantou e disse:
- Vamos lá para fora.
E assim, eles caminharam para o corredor e o padre virou-se para o secretário e disse :
- O que está acontecendo lá dentro?
- Nunca se sabe - o secretário do bispo respondeu.
Eles ficaram lá fora por 3, 4, 5 minutos. Era mais do que 10 minutos depois quando algum sinal foi ouvido e secretário do bispo abriu a porta. Eles entraram e sentaram-se. O local estava em silêncio. Depois que trouxeram a sobremesa, eles comeram, trocaram suas despedidas e saíram noite a fora.
Quando finalmente chegaram à Praça de São Pedro do lado de fora, o padre virou-se para o mendigo e disse:
- O que aconteceu lá?
E o mendigo respondeu:
- Eu não acho que você iria acreditar em mim.
- Bem, experimente - disse o sacerdote.
E ele disse:
- Assim que você saiu, o Papa apertou minha mão e disse: "Padre, você ouviria a minha confissão?
- Ele disse isso a você?
- Isso mesmo!
- O que você disse?
- O que eu poderia dizer? "Eu sou um mendigo!”
- O que ele disse?
- Ele olhou nos meus olhos e responder: " Eu também!" . Então eu continuei: "Mas, Vossa Santidade, eu não sou um sacerdote mais." Ele usou então a frase italiana que diz: "Uma vez padre, sempre padre". "Mas eu não estou em comunhão com a Igreja!" – respondi. Ele então me assegurou que, como Bispo de Roma, ele poderia me restabelecer, naquele lugar e naquele momento, com o meu consentimento. Como eu poderia não dar tal consentimento? Então eu disse que sim.
- E você ouviu a confissão do Papa?
- É. E ele teve que me ajudar com as palavras de absolvição porque tinha passado muito tempo desde a última vez que eu havia confessado alguém!
- Uau! - E então, o sacerdote acrescentou: - Nós ficamos lá fora por mais de 10 minutos. Realmente tomou o Papa tanto tempo para confessar?
E então o mendigo disse:

- Não. Quando ele terminou, eu caí de joelhos e implorei para que ele ouvisse a minha confissão. Foi isso que tomou a maior parte daquele tempo! E antes que você voltasse, ele me perguntou onde tinha me encontrado. Eu disse a ele o nome da paróquia e ele me deu o meu primeiro trabalho como padre novamente. Ele disse: "Eu quero que você vá para aquele bairro e eu quero que você alcance todos os nossos companheiros “mendigos” com a graça da reconciliação, porque é isso que todos nós somos! Somos todos mendigos que Deus adotou e tomou por Seus filhos e filhas!"


* Trecho da pregação de Scott Hahn, importante escritor, teólogo e apologista católico norte-americano, sobre o Sacramento da Confissão.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A Mariologia na Redemptoris Mater de João Paulo II - parte 3

Nas próximas páginas, Cándido Pozo, ainda no grande tema da fé de Maria, relembra as palavras de João Paulo II sobre a profecia de Simeão e o cântico de Maria, importantes tópicos dentro da mariologia da Redemptoris Mater.12

b) O segundo anúncio a Maria




Uma técnica, seguida pelo Papa na Encíclica Redemptoris Mater, consiste em alcunhar novos termos para designar conhecidas passagens evangélicas. As novas denominações permitem uma nova compreensão das cenas as quais se aplicam.
Muitas vezes, falamos da profecia do velho Simeão (Lc 2, 34-35) e ponderamos sua importância. Na Encíclica é original considerar-la “como um segundo anúncio a Maria”. O primeiro anúncio, o do anjo, possui tons gloriosos e triunfais; do Filho que é prometido à Virgem, diz-se que “será grande, chamar-se-á Filho do Altíssimo, o Senhor lhe dará o trono do seu pai Davi, reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e seu reino não terá fim” (Lc 1,32-33). Agora Maria tem que ouvir outras palavras, “sugeridas pelo Espírito santo (cf. Lc 2, 25-27)”, que soam de maneira muito mais sombria.
O “segundo anúncio” contém dois elementos: de Jesus diz-se que será “sinal de contradição” (Lc 2,34), isto é, “bandeira discutida” segundo a tradução litúrgica espanhola (o assunto impressiona fortemente João Paulo II, quem, como é sabido, nos Exercícios Espirituais que, sendo cardeal, pregou a Paulo VI, centrou ao redor dele e todas as suas considerações); como conseqüência deste combate em torno a Cristo e da oposição que se faz a Jesus, Maria terá que sofrer: “a tua própria alma será transpassada por uma espada” (Lc 2,35). Por um lado, Simeão expressa “a concreta dimensão histórica na qual o Filho cumprirá sua missão, isto é, em meio à incompreensão e a dor”; por outro lado, anuncia a Maria “que deverá viver no sofrimento sua obediência de fé ao lado do Salvador que sofre, e que sua maternidade será sombria e dolorosa”. Maria não retrocede diante dos aspectos sombrios de sua missão; logo o mostrará assumindo as dificuldades de sua fuga ao Egito para proteger a vida de seu Filho.
A escuridão enquanto Maria “avançava na fé” é patente em Nazaré durante o seu largo período de vida oculta. O Papa mostra que nesses anos, para usar expressões de São João da Cruz, Maria vive a “noite da fé” enquanto um “véu” cobre a realidade do mistério; o uso desta terminologia é normal no Papa: não se esqueça de que a tese de doutorado em teologia de Karol Wojtyla foi sobre “A fé em São João da Cruz”. Provavelmente não meditamos o bastante estes aspectos quando nos referimos à vida oculta de Jesus de Nazaré. O anjo havia dito a Maria, da parte de Deus, coisas gloriosas sobre seu Filho. Ela tem que crer nelas “dias após dia”, ainda que vão passando os anos não somente da infância, mas também da primeira juventude de Jesus até seus trinta anos, sem que paradoxalmente faça nada do que pareceria dever se esperar do Messias. Maria convive em Nazaré com um Jesus desconcertadamente consagrado a tarefas que nada parecem ter a ver com sua missão, nem sequer parecer estar em consonância com a descrição contida no anúncio do anjo. É por isso maravilhoso contemplar que “deste modo Maria, durante muitos anos, permaneceu em intimidade com o mistério de seu Filho e avançava em seu itinerário de fé”. Realmente Maria “vivia em intimidade com este mistério somente por meio da fé”.
O “véu” se faz especialmente denso no Calvário. Ali, junto à cruz, enquanto mantinha seu “sim” da anunciação, tinha, sem dúvida, que recordar, uma vez mais, as palavras grandiosas do anjo: “Será grande, chamar-se-á Filho do Altíssimo, o Senhor lhe dará o trono de Davi seu pai, reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e seu reino não terá fim” (Lc 1, 32-33). Tendo presentes estas palavras em sua memória, acreditava nelas também então, quando “estando junto à cruz, Maria é testemunha, humanamente falando, de uma completa contradição àquelas palavras”. Em nenhum momento de sua vida aparece como nesses momentos a heroicidade da “obediência da fé” de Maria diante dos “insondáveis desígnios” de Deus, cujos “caminhos são insondáveis” (cf. Rom 11,33).

c)         O “Magnificat”: profissão de fé de Maria



Nossa fé tem necessidade de fórmulas concisas nas quais se expresse. Na liturgia eucarística dos domingos e das solenidades, proclamamos nossa fé com as fórmulas veneráveis de um Credo (o Niceno-Constantinopolitano ou o Apostólico), isto é, de uma profissão de fé. Também Maria, ao responder a Isabel com o Magnificat (uma vez mais nesta Encíclica o Papa alcunha um termo novo muito sugestivo), pronuncia “inspirada profissão de sua fé, na qual a resposta à palavra da revelação é expressada com a elevação espiritual e poética de todo seu ser até Deus”. O Magnificat nos permite assim descobrir o conteúdo da fé de Maria.
Antes de tudo, confessa a “nova ‘auto-doação’ de Deus”, o mistério do “eterno amor que, como um dom irrevogável, entra na história do homem” de modo absolutamente novo. Trata-se de uma “promessa feita aos pais” que teve seu cumprimento em Cristo. Maria “se encontrou no próprio centro desta plenitude de Cristo”; “nela, como mãe de Cristo, converge toda a economia salvífica”. A alegria de Maria (“alegra-se meu espírito em Deus meu salvador”) pelas coisas que o Poderoso, cujo nome é santo, fez por ela, tem como fundamento esta realidade central de sua fé: o Deus da Aliança se lembrou “da misericórdia”. “E não se detendo em sua vontade de encher-nos de dons, não obstante o pecado do homem, Deus se dá no Filho”.
Esta é a “verdade não ofuscada sobre Deus” que a “nova Eva” proclama contra a “suspeita” que o “pai da mentira” fez surgir no coração da primeira mulher: o Deus que “desde o começo é a fonte de todo dom”, fez agora grandes obras. “Porque Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único” (Jo 3,16). “Maria é o primeiro testemunho desta verdade”, que a Igreja não cessa de repetir.
Com a força desta verdade sobre Deus, proclamada com tão extraordinária simplicidade por Maria, a Igreja “se vê confortada” e “ao mesmo tempo, com esta verdade sobre Deus deseja iluminar as difíceis e às vezes intricadas vias da existência terrena dos homens”.
“Maria está profundamente impregnada do espírito dos “pobres de Yahvé”. Isto significa que se sente pobre e pequena diante de Deus. Esta consciência de pequenez dá um novo relevo a sua “experiência pessoal” de que Deus fez “grandes obras” por ela. Sentindo-se, ao mesmo tempo, insignificante e amada de Deus, descobre “que não se pode separar a verdade sobre Deus que salva, sobre Deus que é fonte de todo dom, da manifestação de seu amor preferencial pelos pobres e humildes”. Cada um de nós renovará esta convicção meditando as palavras de Maria no Magnificat.
À luz do Magnificat descobrimos que somente a atitude religiosa de Maria, refletida nele, oferece um contexto que permite compreender o sentido do “amor preferencial pelos pobres” e o verdadeiro “sentido cristão da liberdade e da liberação”. Deus “derruba do trono os poderosos, exalta os humildes, enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias... dispersa os soberbos... e conserva sua misericórdia para com os que o temem” (cf. Lc 1, 50-53). A disposição espiritual sobre a que Ele exercita sua misericórdia, nos tira de um contexto meramente sociológico, a propósito do qual a opção deve qualificar-se como preferencial. Talvez não seja inútil lembrar aqui que um teólogo da libertação escreveu que basta o adjetivo “preferencial” aplicado à opção pelos pobres para que uma teologia da libertação com cores marxistas resulte impossível. De fato, a dialética da luta de classes exige optar por um frente a outros, e nela se tornaria sem sentido a opção preferencial por uma das duas trincheiras que se enfrentam em combate; ou se entra com todas as conseqüência em uma ou na outra.

d) Maternidade pela fé



Maria foi Mãe de Cristo como conseqüência de sua resposta de fé ao anjo (Lc 1, 38). O “fiat de Maria – faça-se em mim” – decidiu, a partir do ponto de vista humano, a realização do mistério divino” da Encarnação.
A importância salvífica da fé de Maria, enfatizada nas palavras de Isabel em Lc 1,45 (“Feliz és tu que creste”), permite entender melhor certas passagens evangélicas aparentemente difíceis. Uma delas é exclusiva de Lucas. Enquanto Jesus falava, levada pelo entusiasmo que lhe ouvir produzia nela, “levantou a voz uma melhor dentre a gente, e disse, dirigindo-se a Jesus: ‘Feliz o ventre que te levou, e os peitos que te criaram!’” (Lc 11,27). À exclamação simples e popular, Jesus responde levando o elogio a outro plano: “Mais felizes os que escutam a Palavra de Deus e a guardam” (Lc 11,28).
A outra passagem citada na Encíclica também é tirada de Lucas, mas é patrimônio comum de toda a tradição sinóptica (cf. Mt 12,46-50; Mc 3,31-35).

“Ao ser anunciado a Jesus que sua ‘mãe e irmãos estão lá fora e desejam ver-te’, Ele responde: ‘Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a colocam em prática’ (cf. Lc 8,20-21). E disse isso ‘olhando ao seu redor para os que estavam sentados em  circulo’, como lemos em Marcos (3,34), ou, segundo Mateus, ‘estendendo sua mão em direção a seus discípulos’”.

Ambas as cenas foram qualificadas, às vezes, como as “passagens antimariológicas” dos Evangelhos. Em muitas ocasiões, quis-se ver nessas passagens como expressão de uma vontade de Jesus de distanciar-se de sua Mãe, e até como uma advertência a não supervalorizá-la. Nada mais longe da realidade.
É notável que a Encíclica não somente cite Lc 11,27-28 (de todo, patrimônio exclusivamente lucano), mas também, para a segunda cena, recorra à redação de Lucas, ainda que se trate de uma passagem que é comum a Mateus e Marcos. Creio que esta opção tenha sérios motivos. Lucas não pode ter se esquecido nos capítulos 8 e 11 do que havia escrito no capítulo 1. Nele, ele havia apresentado Maria com palavras de Isabel como “Feliz és tu que creste” (Lc 1,45). Sua resposta de fé não se limitou, segundo o testemunho de Lucas, a ser uma afirmação intelectual frente à palavra ouvida a partir do anjo, mas foi uma entrega total para o cumprimento: “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Lucas é, finalmente, o evangelista que nos apresenta duas vezes, de modo explícito, Maria como a que “guardava” a palavra e “a conservava cuidadosamente em seu coração” (cf. Lc 2,9.51). Por isso, Lucas não pode ter se esquecido dessas afirmações presentes no seu próprio Evangelho, tem que ter sido consciente de que em ambas as afirmações de Jesus (Lc 8,21; 11,28) Maria não somente não fica excluída, mas “que a maternidade nova e distinta, da que Jesus fala a seus discípulos, concerne concretamente a Maria de modo especialíssimo”. Maria é digna de louvor por ser biologicamente Mãe de Jesus, como intuiu aquela simples mulher do povo; mas mais ainda pela reação de fé viva que se entrelaça de modo íntimo com Ele desde o princípio dessa maternidade, desde o “sim” ao anjo na anunciação.
Em todo caso, as passagens citadas contêm uma doutrina de importância primordial para cada um de nós. A imitação de Maria que nos precede em sua peregrinação da fé, cada um de nós pode entrar na família de Jesus, em relação familiar com Ele, por uma fé viva, por uma aceitação de sua mensagem que chegue ao fiel comprimento, a colocá-la em prática com toda nossa vida.
Na Encíclica é enfatizado que a entrega plena de Maria em sua resposta ao anjo está em “plena consonância com as palavras do Filho que, segundo a Carta aos Hebreus, ao vir ao mundo disse ao Pai: ‘Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo... Eis que venho... ó Deus, para fazer a tua vontade’ (Heb 10,5-7)”. Deste modo, o ato pelo qual Maria se dá e pelo qual coopera com obra salvadora de Cristo tem, objetivamente considerado, o sentido de se unir à entrega de Jesus. Imitando Maria, temos que realizar uma entrega da nossa própria vida com uma fé conseqüente que nos una ao próprio oferecimento de Jesus ao Pai. Isso fará possível que cada um de nós afirme: “Pela minha parte, completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo por seu corpo que é a Igreja” (Col 1,24).


[12] Cf. POZO, C., “María, nueva Eva.”, BAC, Madrid 2005, p. 410-416.

A toda prova (ou missão dada é missão cumprida)

Minha reflexão nessa manhã é dupla, mas é única.
É baseada em um argumento somente que gerou em mim duas respostas distintas.

Após fazer uma crítica à amizade íntima entre nosso partido governante e o governo revolucionário castrista de Cuba, apresentando uma estimativa do número de mortos baixo a ditadura de Fidel, me apresentaram o seguinte desafio (objeção implícita): "contabilize quantos a democracia dos estados unidos já mataram..."

Inicialmente, gostaria de fazer o seguinte esclarecimento a qualquer pessoa que venha a ler o que eu escrevo: minha crítica a qualquer governo opressor, a qualquer política que ameace qualquer liberdade ou direito, a qualquer ditadura, não está justificando nenhum governo opressor, nenhuma outra política que ameace qualquer liberdade ou direito, e nenhuma outra ditadura.
Onde está escrito, minha gente, que criticar um governo comunista é sinônimo de exaltar o governo e história dos Estados Unidos?
Ao desejar que o meu país esteja livre do PT e, assim, livre da ameaça palpável de um governo socialista, não implica que eu deseje uma cópia da "democracia" americana no Brasil. ("democracia", já os EUA caminham pela mesmíssima estrada rumo ao comunismo que nós e uma cópia, nos padrões atuais, seria trocar seis por meia-dúzia).

Bom, dito isso, vem agora a parte da tarefa requisitada.
Devo dizer que adoro um dever de casa. Adoro correr atrás de dados, descobrir coisas, mesmo as mais bobas, como quando meu marido e eu esquecemos como se conjuga um verbo qualquer ou como se usa um tempo verbo significando condicional. Encaro mesmo: vou atrás das gramáticas, dos vídeos, dos arquivos...

Para encontrar o números de mortos nas diversas guerras empreendidas pelos EUA ao longo dos anos (que foram muitas), visitei diversos sites com diversos números, mas muitos sem fonte. Vou admitir aqui uma coisa que, do ponto de vista acadêmico não é exatamente louvável: acabei recorrendo ao Wikipedia. Isso poderia desacreditar toda a pesquisa, mas acontece que hoje (principalmente em se tratando de temas anti-americanos) o Wikipedia possui a mais vasta apresentação de fontes bibliográficas que há na internet.

Transportando os dados encontrados para o Excel e aplicando a soma, chegamos ao grande total de: 1.405.429 mortos. Podemos então, para facilitar, arredondar para 1,5 milhões de mortos! Devemos considerar, entretanto, que esse número inclui os mortos na guerra civil americana (que só perde para a II Guerra Mundial em número de mortos) e que, segundo minhas pesquisas, existe um consenso que coloca em 700.000 mortos nesse conflito. A Guerra Civil Americana, bem como os conflitos acontecidos antes dela, não podem então ser, rigorosamente, considerados como "guerras causadas pela democracia americana", já que foi justamente através dessa guerra que os EUA se tornaram um país independente (lembre-se que, até então, não passava de uma colônia britânica). Assim, corrigindo os números e excluindo os mortos sob o governo britânico, chegamos ao total de 638.039 ou aproximadamente 650 mil mortos (um número monstruoso, de fato). 

Diante desse número, os 115.127 mortos baixo o governo de Fidel Castro em cuba até 2004 parecem bobeira. 
Mas resolvi levar a tarefa mais além e tentar encontrar um número que nos mostrasse por quantas mortes o socialismo foi responsável no mundo.
Encontrei um post de um senhor que rebatia um post de um outro senhor e que afirmava que os números de mortos baixo Stalin não são tão altos como normalmente se afirma. E qual é esse número verdadeiro e honesto então? Segundo ele, 2,5 milhões de pessoas! 

Mas não podemos nos esquecer de Mao Tse Tung. Não. Essa obra prima da humanidade foi responsável, segundo diversas fontes, por 40 milhões de mortos por mortes não-naturais. Por que é importante essa distinção? porque se consideramos a fome como uma morte natural, o número pode subir consideravelmente e chegar a 80 milhões de mortos.

O vídeo abaixo, parte do documentário AGENDA, de Curtis Bowers, dá uma luz no assunto (peço desculpas pela marca no centro do vídeo - usei uma versão teste de um programa para cortá-lo):





Conclusão: Porque o socialismo é mal? Por que, independentemente do que eles te façam acreditar, o socialismo não passa de uma máquina de matar. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Mariologia na Redemptoris Mater de João Paulo II - parte 2


Continuando a apresentação do último capítulo de “María, nueva Eva” de Cándido Pozo, traduzo abaixo sua exposição sobre o tema da fé de Maria ao assentir ao plano de salvação do Pai e como o Papa João Paulo II nos guia pelo tema em sua Encíclica Redemptoris Mater.7




1.           A fé de Maria

Dentro dos testemunhos patrísticos mais antigos sobre a associação de Maria, como nova Eva, à obra salvadora de Cristo é importante que Tertuliano acentue a importância da fé de Maria nesta colaboração positiva: “Eva havia crido na serpente; Maria creu em Gabriel. O que aquela pecou crendo, apagou esta crendo”. Isto obriga a estudar um dos temas maiores presentes na Encíclica Redemptoris Mater, a importância da fé de Maria de modo a realizar a missão que Deus a confiou. H. U. Von Balthasar chegou a escrever: “O toque genial da Encíclica consiste, sobretudo, em ter colocado no seu centro o tema da fé de Maria”8. Este é o primeiro ponto que creio ser necessário estudar para dar uma visão de conjunto da doutrina mariológica da Encíclica, sem deter-me, de modo reflexo, no que pudessem ser seus aspectos ecumênicos, que o mesmo Von Balthasar expressava, em seguida das suas palavras citadas, na forma de uma pergunta meramente retórica: “a Encíclica por acaso não mantém um oculto e apaixonado diálogo com Lutero?”.

a)           A Anunciação

Quando os Padres do século II começam a expor a teologia de Maria como “nova Eva”, fazem-no aludindo explicitamente à cena da anunciação. É nela onde Maria dialoga com o anjo e obedece a Deus, em antítese à desobediência da primeira Eva após o seu diálogo com o demônio. Por isso, era óbvio que o Papa começasse sua Encíclica mariana com uma profunda reflexão sobre a Anunciação.
O anjo saúda a Maria com as palavras “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1, 28). É bem sabido que a expressão “cheia de graça” não é estritamente uma tradução do particípio grego κεχαριτωμένη9, mas sim fruto de uma reflexão de fé sobre ele. Sem dúvida, o verbo χαριτóω, que contém como raiz a palavra χαρις (graça), tem, no Novo Testamento, sentido teológico (“fazer objeto da graça”), como consta pela única outra passagem em que aparece: Deus Pai “nos fez objeto da graça no Amado” (Ef, 1,6). Com isso, é claro que toda tradução de κεχαριτωμένη na linha de um sentido profano do verbo – linha iniciada no século XVI com as traduções de Erasmo e Lutero - estaria fora de lugar.
É normal explicar a mudança da mera tradução “feita objeto da graça” ao desentranhar seu sentido, por uma reflexão de fé, como “cheia de graça”, apelando ao fato de que o particípio faz em Lc 1,28 as vezes de nome próprio da Virgem10. A utilização de uma denominação gramatical, através de um adjetivo ou verbo no particípio, como se fosse nome próprio de alguém só pode ser feita quando a qualidade aludida se dá por antonomásia11 naquela pessoa. Este modo de argumentação se dá na Encíclica como conhecido e é reconhecido o seu valor. O Papa, entretanto, mostra predileção por um método que é característico na Redemptoris Mater e que consiste em iluminar o texto através de uma outra passagem bíblica aparentemente sem relação, mas que, colocado em paralelismo com ele, permite chegar ao fundo de seu significado.
Em efeito, Isabel proclama Maria “bendita entre as mulheres” (Lc 1,42). A expressão a situa por cima de todas. Deste modo, é significativo que a ação de graças “se refira a Maria de modo especial e excepcional”.
As graças que nos são concedidas nos conduzem a uma entrega a Deus. A plenitude de graça previamente concedida a Maria tende a suscitar n’Ela uma plena resposta de fé às palavras que o anjo a transmite. Também Isabel louvará a fé de Maria e a declarará feliz porque teve essa fé: “Feliz aquela creu” (Lc 1, 45). “A plenitude de graça anunciada pelo anjo significa o próprio dom de Deus; a fé de Maria, proclamada por Isabel na visitação, indica como a Virgem de Nazaré respondeu a esse dom”.
Mas não podemos esquecer que a formulação histórica da resposta de fé de Maria tem tons da mais total entrega: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc, 1,38). É conhecido que a palavra “fé” tem no Novo Testamento diversos sentidos. Somente dois nos interessam aqui. Às vezes, o termo se refere a uma “fé” meramente intelectual. É o sentido que, para atender a uma problemática muito viva naquele momento, privilegiou o Concílio Vaticano I. Não se pode sub-valorizar a importância desta fé. Entretanto, é importante declarar sua insuficiência, se não se desenvolve de modo que seja “a fé que atua pela caridade” (Gál 5,6). Quando a fé não chega a um comportamento coerente, teremos que reconhecer com tristeza que “como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta” (Tia 2,26). Em outras ocasiões, no Novo Testamento, a palavra “fé” tem o sentido totalizante de plena resposta afirmativa a Cristo que começa pela adesão intelectual e se prolonga no comportamento coerente. O Concílio Vaticano II utiliza este conceito ao dizer que “pela fé o homem se entrega inteira e livremente a Deus”. Uma explicação oficial dada no próprio Concílio faz alusão a que com a fórmula citada se reproduz “a aceitação mais ampla da palavra que aparece nos escritos de Paulo”. É o que teologicamente se chama “fé formada”, na qual, além da fé em sentido estrito, “incluem-se a esperança e a caridade”. A resposta de fé de Maria evidentemente não se circunscreve somente a aceitar como verdadeiro o anúncio do anjo, mas passa a uma disponibilidade absoluta frente aos planos de Deus; como escrava se submete a Sua vontade e se oferece para unir seu destino ao de seu Filho: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38).
Compreende-se a insistência da Encíclica em que imitemos a “obediência da fé” (Rom 16,26) de Maria, pela qual “se consagrou totalmente a si mesma, qual escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho”. Maria na sua “excepcional peregrinação de fé representa um ponto de referência constante para a Igreja, para os indivíduos e comunidades, para os povos e nações e, em certo modo, para toda a humanidade”. Desde o momento da anunciação, Maria empreende “todo seu ‘caminho até Deus’, todo seu caminho de fé. E sobre essa via, de modo eminente e realmente heróico – mais que isso, como um heroísmo de fé cada vez maior – se efetuará a ‘obediência’ professada por ela à palavra da revelação divina. E essa ‘obediência da fé’ por parte de Maria ao largo de todo seu caminho terá analogias surpreendentes como a fé de Abraão”. Nestes tempos de fé fraca e, mais ainda, de fé pouco coerente, a figura de Maria adquire um relevo de exemplaridade indiscutível. Faremos bem em olhar para Maria para aprender com Ela como deve ser a nossa fé.



[7] Cf. POZO, C., “María, nueva Eva.”, BAC, Madrid 2005, p. 406-409.
[8] “Kommentar”, em J. RATZINGER – H. U. VON BALTHASAR, Maria – Gottes Ja zum Menschen. Enzyklika “Mutter dês Erlösers”, o.c., 133.
[10] SAN PEDRO CANISIO, De Maria Virgine incomparabili et Dei Genitrice sacrosancta, 1.3, c.7, p.266 havia demonstrado que o particípio sem artículo adquire sentido de algo que se é por excelência sobre os demais. “O anjo substitui nome de Maria por κεχαριτωμένη: é o seu "novo nome", o nome pelo qual é conhecida no plano de Deus, revelado na mensagem.” (J. P. AUDET, “L’Annonce à Marie”, a.c., 359).
[11]  Figura de linguagem caracterizada pela substituição de um nome por outro nome ou expressão que lembre uma qualidade, característica ou um fato que, de alguma forma, identifique-o.